30 de janeiro de 2018
Especialista alerta: “Tratamento barato deve ser questionado”

A aplicação da toxina botulínica é o procedimento estético não-cirúrgico mais realizado no mundo – por ano, são mais de 4,6 milhões de aplicações, segundo a International Society of Aesthetic Plastic Surgery (Isaps – Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética).

Desde que ficou disponível para fins estéticos, a toxina botulínica tem sido vista como uma poderosa arma de combate ao envelhecimento.

Mas apesar da popularização do tratamento no Brasil e no mundo, muitas dúvidas existem em relação ao tema, alguns temores e muitos cuidados a serem tomados na hora de escolher uma clínica, consultório ou profissional.

Hoje, vários profissionais estão aplicando a substância: enfermeiros, fisioterapeutas e dentistas já oferecem o procedimento. E os preços também variam muito!

Para tirar as principais dúvidas sobre o assunto, entrevistei a cirurgiã plástica Dra. Beatriz Lassance, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, da ISAPS (International Society of Aesthetic Plastic Surgery) e da American Society of Plastic Surgery. A médica é formada pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa.

Dra. Beatriz Lassance, cirurgiã plástica da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica

Atitude Quarenta – Qual a diferença entre toxina botulínica e Botox? O efeito de cada um é diferente?

Dra. Beatriz Lassance – Toxina botulínica é o princípio ativo que é extraído de bactéria Clostridium butullinum e tem o efeito de paralisar a musculatura, interrompendo a ação entre o nervo motor e o músculo. É uma toxina extremamente potente e causa uma doença chamada botulismo. Foi isolada nos Estados Unidos, diz a lenda como arma de guerra. Existem várias toxinas botulínicas, a mais potente é a tipo A. A toxina é medida em unidades. 1 unidade de toxina botulínica é capar de matar 50% de uma população de ratos em experimento. A dose letal em humanos é de 2.800 a 3.000 unidades.  Num tratamento habitual usamos de 50 a 100 unidades no total. O volume de líquido que isso representa é muito pequeno. As marcas diferem na produção e na molécula.

O Botox é normalmente diluído em 1ml de soro fisiológico e são utilizadas 1 a 10 unidades por ponto, sobre o músculo que se deseja paralisar.

O Dysport deve ser utilizado na proporção 3 ou 4 para cada unidade de Botox. Ou seja, em locais onde colocamos 5 unidades de botox por ponto devem ser utilizadas 15 ou 20 de Dysport. Isso não significa que a duração é diferente ou menos potente, apenas a utilização é diferente.

Atitude Quarenta –  Além de Botox, quais são as outras marcas mais utilizadas de toxina botulínica? São diferentes?

Dra. Beatriz – A primeira empresa a comercializar foi a Allergan com nome comercial de BOTOX. Quando caiu a exclusividade da patente, surgiram novas marcas comerciais como Dysport, Xeomin, Botulift, ProSigma e outras estão sendo anunciadas para os próximos anos.

Atitude Quarenta – Para quais áreas do rosto o tratamento é indicado? E onde ( em quais regiões do rosto) não devemos aplicar “botox”? Por que?

Dra. Beatriz – A toxina botulínica paralisa o músculo. Qualquer músculo pode ser tratado. Rugas da face são consequência da contração muscular, que enruga a pele que está sobre este músculo. Paralisando o músculo a pele não se move e eliminamos as rugas. O profundo conhecimento da anatomia e dinâmica da musculatura facial é muito importante. Todos os músculos funcionam de forma independente, mas interagem entre si conferindo harmonia à expressão facial.

Por exemplo, os pés de galinha, na lateral dos olhos são causados por contração do músculo orbicular que contorna os olhos, quando se contrai, fecha um pouco o olho e abaixa a parte lateral da sobrancelha. O músculo frontal quando se contrai eleva as sobrancelhas. A ação de ambos faz com que as sobrancelhas assumam posição neutra e tenhamos expressão facial elevando ou abaixando o supercílio. Ou seja, quando aplicamos a toxina na lateral dos olhos, o orbicular fica paralisado e o frontal perde seu opositor, elevando a posição da sobrancelha, o que pode significar um olhar mais disposto, menos triste, mais agradável, mas essa ação pode ser exagerada se o frontal for muito potente e a sobrancelha sobe muito e confere cara de susto ou de mau (Malévola).

A toxina tem que ser usada de forma precisa paralisando somente o músculo desejado. Se o volume utilizado, por ser muito diluído for muito grande, a toxina pode se espalhar e atingir músculos vizinhos causando efeitos indesejados, como o elevador da pálpebra e causar ptose da pálpebra impossibilitando a abertura dos olhos.

O código de barras ao redor da boca também é causado pela contração do músculo orbicular da boca. Mas se tentarmos paralisar esse músculo pode afetar a contração dos lábios e ficar difícil até mesmo comer.

Ou seja, alguns músculos são muito importantes para a expressão e função da face e não podem ser paralisados. Outros são responsáveis por expressões que podemos viver sem elas, como por exemplo os pés de galinha ou os músculos da glabela entre os olhos. Paralisar os músculos glabelares impede a expressão de braveza, mas podemos ficar sem ela.

Atitude Quarenta – O mercado trabalha com preços bem variados: desde muito baratos a bem caros. Por que tanta diferença de preço? Qual é um preço médio de um bom produto?

Dra. Beatriz – Ótima pergunta. O produto é caro. A substância toxina botulínica de boa qualidade é cara. O produto vem em pó, Botox e Dysport devem ser armazenados sob refrigeração controlada; já o Xeomin pode ser armazenado em temperatura ambiente. O produto, seja qual for a marca deve ser diluído no momento da aplicação. Uma vez diluído deve ser utilizado em poucas horas.

O número de unidades de produto por ponto é muito importante para o efeito e durabilidade do produto. Normalmente o paciente não tem ideia desta diluição, do número de unidades aplicadas ou mesmo quando foi diluído, quais as condições de armazenamento ou quando foi diluído. Só sabe que é “botox” e está barato ou caro. Não existe mágica, poucas unidades por ponto torna o tratamento barato, mas efeito e ou duração serão menores.

Atitude Quarenta- Quanto tempo dura , em média, o efeito do “botox”? Quando deve ser refeito?

Dra. Beatriz – A toxina bloqueia a liberação de neurotransmissor na sinapse entre o nervo e o músculo, que é o que faz o músculo se contrair. Mas o nervo não se conforma e produz outra terminação entre ele e o músculo e isso leva de 4 a 6 meses em média.

O uso contínuo da toxina enfraquece o músculo e deixa efeito mais duradouro a longo prazo, ou seja, deve ser reaplicado sempre que o músculo começar a contrair novamente.

Atitude Quarenta – Ampolas muito diluídas diminuem a durabilidade do tratamento?

Dra. Beatriz – Sim, quanto maior o número de unidades de toxina e menor o volume de líquido mais preciso e melhor o efeito, as indicações do fabricante devem ser sempre respeitadas, mas o paciente não tem essa noção. Tratamento barato deve ser questionado.

Atitude Quarenta –  Os pacientes podem ficar imunes ao “botox”?

Dra. Beatriz – Sim, sendo uma toxina, se for aplicado em intervalo muito curto, o organismo produz anticorpos e ataca a toxina não a deixando agir.

Atitude Quarenta – Existe uma liminar da Justiça que vem proibindo dentistas de aplicarem botox e preenchimentos. O assunto é bastante polêmico. Por que um dentista, que conhece os músculos da face, não deveria aplicar “botox”?

Dra. Beatriz – O conhecimento profundo da anatomia da face e seus músculos é extremamente importante, toxina aplicada de forma errada pode ser desastrosa. A odontologia tem conhecimento anatômico no que diz respeito à boca e seus elementos, não é estendido à face como um todo. A medicina estuda a face de forma global e muito mais aprofundada, oferece muito mais segurança.

Atitude Quarenta – “Botox” vicia o músculo? (ele perde a eficácia com várias aplicações)?

Dra. Beatriz – Não, pelo contrário. O músculo relaxado continuamente perde seu tônus, sofre até uma atrofia. Além disso faz com que o paciente “aprenda” a não contraí-lo mais, como se fosse uma reeducação dessa musculatura. A falta de eficácia da toxina está mais associada à imunologia. Alguns pacientes não respondem bem ao tratamento e não há explicação clara para isso. Tenho alguns pacientes que absolutamente nunca reagiram à toxina botulínica.

Atitude Quarenta –  O que pode dar errado ( efeitos colaterais, “imunidade”, pálpebras caídas, sobrancelhas muito arqueadas…)? Tem correção?

Dra. Beatriz – A aplicação errada é o maior vilão. Aplicar no músculo errado é a causa mais frequente, e o tempo é o melhor remédio. Uma vez que apresente efeito indesejado, pode-se estimular o nervo a produzir a nova terminação nervosa de algumas formas, como eletroestimulação, exercícios e alguns cremes, mas demora algum tempo, não há antídoto imediato. Sobrancelhas muito arqueadas, podemos bloquear também parte do músculo frontal e abaixá-la um pouco. Tudo é questão de conhecer o músculo que estamos paralisando e seus efeitos na dinâmica facial. Técnica precisa com muito estudo e experiência desde o armazenamento até a aplicação é importante para satisfação do paciente.

 

 

 

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