2 de outubro de 2013
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Amor e cartas andaram juntos por séculos e só recentemente pediram divórcio


Não me lembrava da última vez em que tinha recebido uma carta. Destas de verdade, sabe, escritas a mão (!) e tudo.

Fiquei surpresa ao chegar ao trabalho e encontrar uma carta de uma assessora de imprensa apresentando um novo produto, com o sugestivo nome de Alma de Flores. 


Realmente uma carta tem alma!

Claro que a missiva profissional não tem o mesmo peso de uma carta de amigo ou familiar, mas bastou para trazer lembranças do tempo em que nos comunicávamos por meio da escrita à mão, com letra cursiva – até mandávamos postais para os amigos quando estávamos viajando. Há quanto tempo não envio ou recebo um postal? No mínimo, desde o século passado! 

Atualmente, as viagens são compartilhadas no Instagram ou Facebook, num caleidoscópio de imagens inserido num turbilhão de informação. Basta selecionar a foto e enviá-la para uma rede social, como um postal coletivo para todos os seus “amigos”. Assim, todo mundo fica sabendo como você está “feliz” em Paris ou no Guarujá. 

Na escola, uma das aulas minhas aulas preferidas de Português era “Como enviar uma carta”, quem se lembra? Tínhamos de saber direitinho onde colocar o nome do destinatário, endereço, CEP e remetente (pergunte para algum garoto da geração Z o que é remetente e ele vai ter certeza que é algum tipo de spray para matar bicho…). 

Na prova, a professora colocava o desenho de um envelope e o aluno tinha de preencher os espaços corretamente. Depois, era hora de escrever a carta, que podia ser para para alguma super amiga (que hoje não vemos mais, só pelo Face) ou para aquele garoto com quem sonhávamos no meio da aula chata ( mas para quem nunca entregávamos a cartinha).

E teve também a fase de trocar correspondência com os amigos, mandar reclamações por escrito para jornais, ou mesmo terminar ou reatar relacionamentos. Aliás, amor e cartas andaram juntos por séculos e só recentemente pediram divórcio. 

“Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas”, já dizia Fernando Pessoa, sob o heterônimo Álvaro de Campos. O poeta português também teve seus momentos românticos e “ridículos” nas cartas endereçadas à namorada Ofélia Queiroz. Beethoven, Byron, Napoleão, Darwin, Henrique VIII: todos eles imortalizaram seus amores em missivas apaixonadas, intensas, simples ou erotizadas. Cartas guardadas e reproduzidas em livros do gênero. 


Não me lembro de conhecer alguém que tenha impresso um email, para guardá-lo no meio de um livro de poesias como fez com a carta de amor do primeiro namorado…   

As cartas sempre tiveram um tempo próprio, muito diferente do frenesi da atualidade. Eram pensadas, escritas, reescritas, às vezes rasgadas. E ainda tinha o tempo de envio, que podia levar dias ou até semanas. 

Pois hoje, romances começam e terminam por WhatsApp e o máximo do sentimento alheio é perceber que a resposta à sua mensagem não demorou mais de um dia para ser enviada.

No meio deste ritmo alucinante, quer impressionar de verdade? Fazer algo diferente, como a assessora que ganhou atenção em meio a uma quantidade monstruosa de emails recebidos? 

Mande uma carta! 

Com certeza você vai surpreender e alegrar alguém de verdade com esta atitude.



Fotos: Andrea Martins e Reprodução


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