9 de abril de 2013
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A dor da perda de uma pessoa próxima é um assunto universal. Perder um pai, mãe ou irmão faz qualquer um sofrer, em qualquer lugar, país, condição econômica, fé ou religião. As pessoas tendem a fugir desta reflexão, mesmo sabendo que um dia ela sempre vem…  


O tema forte ganhou ainda tons mais trágicos no documentário Mataram meu Irmão, que estreou no 18º Festival É Tudo Verdade 2013.

No filme, o diretor Cristiano Burlan escancara a sua própria vida – e da família- para reconstruir através de relatos de parentes e amigos o que foi o assassinato do irmão Rafael Burlan, em um bairro da periferia de São Paulo, há 12 anos. 
Para reconstituir os detalhes do assassinato, o cineasta lançou-se a uma jornada pessoal que leva o espectador ao coração de um círculo de violência em torno de bairros da periferia paulistana – como o Capão Redondo, onde morava a família; e o irmão, de 22 anos, foi morto com sete tiros, em 2001.

O filme de 77 minutos é um soco no estômago e um tapa na cara da sociedade. 

Ao recontar a história da morte do jovem, o diretor coloca na cara do espectador o jovem envolvido com drogas e roubo de carro como uma pessoa real, e não como uma estatística policial ou uma reportagem de programa sensacionalista.

Aquele jovem tinha uma família, filhos, amigos, irmãos, sonhos. Quem assiste, percebe que passou a vida inteira sabendo de notícias daquele tipo – “Jovem morto a tiros no Capão Redondo estava envolvido com crack e roubo” – sem se atentar que o sujeito da notícia é um ser humano.  

Explorando as razões do envolvimento do irmão com drogas e roubo de carros, o diretor expõe partes de sua própria história familiar, ouvindo parentes e amigos, cujos depoimentos trazem à tona o destino dos personagens. Muitas vezes trágico, como a morte da mãe, o alcoolismo do pai, a prisão de um outro irmão, a orfandade dos sobrinhos…

“O desejo de documentar o ocorrido (com meu irmão) me acompanha há muito tempo. Acredito piamente que o cinema é um instrumento de precisão para se decifrar o mundo. Quando se tem o contato com a morte, algo muda em você, e talvez a forma que encontrei para uma compreensão maior dessa dor seja refletir sobre a morte do meu irmão através do meio em que me expresso, o cinema”, conta o diretor.

Durante todo o filme, o diretor conta a história do irmão assassinado sem mostrar o rosto dele. Rafael só aparece no final, nas fotos da polícia , com os setes tiros indicados por setas. Loiro, jovem, bonito e morto. 

“Não escrevo roteiros para documentários, mas tomei algumas decisões prévias: que não fosse um documentário ‘chapa branca’ e que editaria o mínimo possível as entrevistas”.

Chapa branca, com certeza, não é! A plateia saiu muda, quase envergonhada. 

Não sei se o filme vai entrar em cartaz, mas deve passar, mais para frente, em algum canal de documentários, como Canal Brasil. Se ganhar o festival (e tem chances) deve ser reapresentado. Veja e repense tudo que sabe sobre periferia e violência…







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