9 de novembro de 2012
Sem categoria

Quando eu era “foca” (jargão jornalístico para definir repórteres no começo de carreira) na Rádio Trianon, no início dos anos 90, uma das minhas funções era fazer a “checagem policial”.

Eu ligava para as principais delegacias da cidade e apurava se eles tinham alguma ocorrência “importante”.

Nos primeiros dias, tudo para mim era grave, digno de nota ou apuração mais aprofundada.

Com o tempo, comecei a aprender a fazer uma triagem da notícia e separar o que era “noticiável” das outras ocorrências.

Alguns meses depois, fui ficando relativamente “insensível”.

Assassinato de dois homens em Parelheiros? Ah, não, não é notícia, acontece direto…”, dizia para o escrivão.

O que gerava notícia era crime passional no Pacaembu…

“Briga de marido e mulher em Sapopemba? Ah, não, tem todo dia”

Notícia mesmo era B.O. de artista estapeando a namorada em uma boate famosa…

Lembro de um escrivão ter me passado a informação de uma criança atropelada por um trem. Perguntei onde foi: “São Mateus”. “Ah, acho que não rende para o jornal”.

O dia a dia com a tragédia humana vai criando uma carapaça de insensibilidade nas pessoas. Afinal, como conviver com desgraça o tempo todo e sofrer?

Estou contando tudo isso para falar sobre minha experiência no Pronto Socorro do Hospital Metropolitano, na Vila Romana, em São Paulo, nesta semana.

Cheguei com muita dor na perna direita e aguardei horas intermináveis para ser atendida pela triagem da enfermaria.

Fiquei das 16 às 22 horas no PS e não consegui ser atendida por um ortopedista


Depois de fazer a ficha, quando fui assinar a autorização de cobrança do convênio (curiosamente a parte mais rápida do meu atendimento), descubro que na minha ficha de triagem foi escrito “paciente sem dor”.

Opa, se eu fui ao hospital reclamando de dor forte na perna, porque na triagem me avaliaram como paciente sem dor?

Pedi nova triagem. O enfermeiro me explicou que a Amico criou uma tabela para avaliação de dor, para priorizar o atendimento de quem tem sinais graves de dor, como estar se dobrando ou retorcendo.

Pessoas que sentem “apenas dor”, sem sinais clínicos como respiração diferenciada, batimento cardíaco ou pressão alterada, têm de aguardar. No caso daquele hospital, muitas e muitas horas! 

“Se eu perguntar o nível de dor para os pacientes, todos vão dizer dez”, disse.

Será???

Na minha ficha referente à “Dor na Perna Direita”, fui avaliada como Paciente sem Dor (conforme grifado)

Fiquei pensando naquilo e analisando, não o grau de dor, mas o nível de sensibilidade do hospital com os pacientes.

Quem já teve dor de dente, de ouvido, cólica renal ou até enxaqueca sabe que os sinais vitais de pressão e batimento cardíaco vão se manter estáveis, mas o nível de dor pode beirar o insuportável.

Muito me espanta o grau de sensibilidade e preocupação com o bem estar das pessoas dos administradores de hospitais e até de uma nova geração de médicos,que tratam a dor dos pacientes através de uma tabela classificatória criada por profissionais, e não pelo relato do próprio paciente.

Quando eu percebi, lá nos idos dos anos 90, que estava ficando insensível na minha checagem das delegacias, deixei a cobertura policial de lado e fui fazer outras coisas.

Eu quero, sim, me importar com uma criança que morreu atropelada por um trem, independente do bairro em que ela morava. 

O mesmo serve para quem cuida de gente: os insensíveis à dor dos outros, porque ganham pouco ou porque simplesmente não se importam, podem arranjar outra profissão ou área para atuar. Os pacientes agradecem! 

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Fotos: Andrea Martins  

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