16 de outubro de 2012
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Fernanda Montenegro foi a primeira pessoa realmente importante que entrevistei na vida. E uma das pessoas mais gentis e doces que conheci dentro e fora do meio artístico.

A diva da TV e do cinema também foi a primeira entrevista que fiz e perdi. E que recuperei depois, graças a algumas ameaças de demissão, suicídio e escarcéu! Fernanda Montenegro definiu meu futuro na profissão.

Explico melhor: quando trabalhava na Rádio Trianon, no começo dos anos 90 (meu primeiro emprego “de verdade” na área jornalística), surgiu uma pauta para entrevistar Fernanda Montenegro. “É minha. É minha”, pensei.

A atriz ia estrear uma peça e convocou a imprensa para falar sobre o novo trabalho. Prontamente me ofereci para ficar além do meu horário e ir ao teatro falar com ela. Meu chefe deve ter titubeado e pensado: “O que esta fedelha vai falar para uma atriz como Fernanda?”

Mas como ninguém mais se ofereceu para fazer hora extra, lá fui eu.

Escrevi algumas perguntas, peguei um gravadorzinho de fita e fui para o teatro, ali na Bela Vista.

O estômago dava voltas, como sempre dá quando vou fazer algo que eu sei que é muito importante, mas quero manter uma cara serena de quem sabe o que está fazendo ali…

Ela iria conceder apenas alguns minutos individualmente para cada entrevistador. Na minha vez, fui recebida pela atriz sentada em uma cadeira simples, na coxia do teatro, sem maquiagem e muito a vontade.

O marido Fernando Torres estava junto e fazia o papel de interromper as entrevistas que se estendessem demais.

Sentei na frente dela, liguei o gravador e entrevistei Fernanda Montenegro do alto dos meus 20 anos!

Ela agradeceu, me beijou o rosto e partiu. Eu respirei depois do maior tempo de apneia que me lembro de ter feito e segui, toda feliz, para a rádio.

Guardei o gravador na gaveta  e fui pra casa, leve e feliz com o dever cumprido. “Edito amanhã, vou precisar dar uma ‘limpada’ na entrevista”, fui pensando no metrô.

No outro dia, triste surpresa: abro a gaveta, pego o gravador e cadê a fita? Um  editor havia “desmagnetizado” a fita para gravar qualquer outra coisa por cima. (N.E.: desmagnetizar a fita era passar o objeto num imã gigante que apagava tudo que estivesse gravado. Coisas pré-digitais!)

Enfartei! Como eu ia explicar para o meu chefe, o temível FernandoVieira de Mello (o do túnel na Rebouças) que eu tinha PERDIDO a entrevista com a Fernanda Montenegro que ele havia pedido pra fazer?

Fiz o que todo funcionário ajuizado faz: menti! Quando ele me perguntou da entrevista, disse que tinha ficado ótima e que ia editá-la para o dia seguinte.

Passei a tarde suando, pensando nas possibilidades de emprego para uma jovem “foca” e em como contar a verdade para o Seo Fernandão – ou quem sabe pular ali mesmo da janela, em plena Avenida Paulista e virar  notícia…

Foi quando veio a ideia redentedora: por que não fazer uma segunda entrevista com Fernanda Montenegro? Afinal, ela tinha sido tão gentil…o que custava me atender e responder às minhas perguntas tudo de novo?

Fui novamente para o teatro e começou a ladainha: como não era dia de coletiva de imprensa, não queriam deixar que eu entrasse no teatro antes do espetáculo.

Expliquei que Fernanda estava me esperando (mentira), disse que precisava fazer a entrevista para colocar no jornal da manhã (mentira), argumentei, até que me deixaram entrar. Aí veio a segunda e maior dificuldade: passar pelo marido dela, o ator Fernando Torres.

Ele simplesmente disse que ela não iria me atender, que já tinha ficado meia hora comigo no dia anterior (mentira) e que estava relaxando e se preparando para a estreia. Eu entrei em pânico e argumentei que TINHA que fazer a entrevista (verdade), que ia ser demitida (verdade), perder meu primeiro emprego (verdade), que ele seria responsável pelo meu fracasso profisisonal (quem sabe), blá blá blá…

Irredutível, ele disse que não e ponto. Pirei: comecei a chorar e gritar, pedir pelo amor de Deus, fiquei brava , tive quase uma crise de bronquite nervosa…Só sei que fiz um escarcéu tão grande no teatro   que a própria Fernanda veio ver o que estava acontecendo.

Com ela ali, não tive dúvida: saquei o gravador, expliquei que a fita tinha amassado (mentira) e que precisava de apenas 3 respostas. Ela me olhou com aquele olhão de FM e antes que o marido dissesse que não, sentou comigo num sofazinho e deu a entrevista de novo. E não foram só 3 respostas, foram várias, todas!

Nunca mais me senti tão feliz e realizada ao entrevistar uma pessoa ( talvez o Roberto Carlos, mas esta é uma outra história). A entrevista foi ao ar, meu chefe nunca soube do ocorrido e eu segui na profissão.

Sempre que vejo Fernanda Montenegro em uma novela, filme, teatro ou foto, revivo aquele instante pleno de realização profissional. Hoje, ela completa 83 anos, mas o presente acabou vindo pra mim…relembrar a gentileza e a atenção dela com uma jovem repórter ainda na faculdade explica um pouco porque ninguém é grande à toa. Parabéns e obrigada, Fernanda!  

Fotos: reprodução

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