17 de maio de 2012
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Cena 1:

Dois atendentes, duas pessoas sendo atendidas e eu aguardando há meia hora na recepção do posto de saúde da rua Catão, na Lapa, para PERGUNTAR onde eu tiro uma carteirinha do SUS para entregar para o convênio da Porto Seguro.

Cena 2:

Uma mulher de uns 40 anos tenta, em vão, fazer um exame de colposcopia, depois de ter ido a outro posto no mesmo bairro, onde tinha consulta marcada há várias semanas. Motivo de não ter feito o exame ? A médica tinha faltado!

Cena 3:

A atendente mulher, o atendente senhor-de-uns-60-anos-metido-a-engraçadinho e um terceiro atendente jovem que estava atrás de um pilar apenas conversando passam a discutir, em voz alta, as agruras de se fazer uma colposcopia. Quem é mulher e já fez o exame sabe do que estou falando: é algo bastante constrangedor para ser debatido em uma recepção cheia de um posto de saúde. O atendente velhinho solta a máxima: “Ainda bem que não nasci mulher”. Pensei: “E os exames de próstata vão bem?”. Fiquei quieta…

Cena 4:

Eu ainda estava tentando perguntar sobre a carteirinha do SUS, depois de quase 40 minutos em pé, quando os atendentes passam a discutir, entre eles, se para fazer colposcopia tinha que ter o Papanicolau em mãos.
A mulher, quieta, só confirmou que já tinha feito o Papa, mas que não estava com ele.
A atendente: “Xi, não tem vaga aqui no sistema. E o resultado do Papanicolau demora QUARENTA DIAS para ficar pronto”. ( Eu já estava ficando bem irritada por mim e pela mulher, mas ela estava calma. Acho que já está acostumada com a falta de respeito do sistema público de saúde).

Cena 5:

Finalmente consigo falar com atendente senhor-de-uns-60-anos-metido-a-engraçadinho que fica o tempo todo conversando com o outro atendente enquanto faz minha carteirinha do SUS. Tenho de repetir meu endereço TRÊS VEZES, mesmo tendo dado a ele um comprovante de residência. Pergunta minha etnia: “Branca, parda ou negra?”.
Respondo: “Negra”.
Ele diz: “Parabéns”.
Não entendi…(Imagino que poucos se auto-intitulam negros no posto. Devem optar pelo pardo).

Cena 6: A mulher que perdeu a manhã de trabalho indo a dois postos, passou vergonha tendo seus exame de colposcopia sendo debatido na recepção do posto entre desconhecidos, não fez o exame, não tinha o resultado do Papanicolau que demora 40 dias, pediu um atestado para justificar a ausência da manhã no trabalho. Disseram que dariam apenas das 10:40 às 11:30. Ela perguntou se podiam dar até 12 horas para poder ir almoçar. Resposta: “Não”!

Cena 7 : Pego minha carteirinho do SUS e aguardo a do meu filho  (mais um tempão pra ser feita). Começo a fazer cara feia para o “engraçado” atendente.
“Está com pressa?”.
“Muita”.
Ele entendeu, pelo meu olhar, que eu não era a mulher ao lado, que não questionou absolutamente NADA. Mais uma gracinha e ele levaria uma respostinha bem atravessada…

Cena 8: Pego as carteirinha, chego ao trabalho, entrego no RH da empresa, sento na minha mesa e  abro o seguinte email:

“O Ministério da Saúde definiu na última sexta-feira, que vai registrar o cartão nacional de saúde a partir de informações repassadas pelo plano, com base no CPF do usuário e seus beneficiários. Esta medida foi tomada devido a grande demanda nos postos de saúde”. Ou seja, não é mais necessário ter o tal cartão do SUS para entregar para os planos de saúde.

Cena: Pensei na palavra que os atores desejam uns aos outros na estreia de um espetáculo: MERDA!

Este é o verdadeiro teatro do absurdo!

PS: A “peça” narrada acima se passa em São Paulo, a maior cidade da América Latina e a mais rica do Brasil. Imagino que os roteiros “encenados” nas cidades do interior ou no Norte e Nordeste tenham um apelo mais voltado ao terror e sensacionalismo…

Vale lembrar que os exames de papanicolau e colposcopia servem para prevenir o câncer de colo, um dos mais mortais para as mulheres. Tratá-los com desdém e falta de respeito não é a melhor atitude num país governado por uma representante dos exo feminino…

   



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